Modelos Familiares

Florianópolis

Modelos Familiares

Estamos inseridos na vida cotidiana, com valores contemporâneos, em que é explícito a todos nós a diversidade de Modelos Familiares: casais homossexuais, heterossexuais, Bissexuais, a questão da monogamia, poligamia, e todas as mudanças que estamos vivenciando com os novos paradigmas emergentes. Se refletirmos sobre como a Sociedade e a nossa cultura de modo geral, percebemos que existe uma certa imposição quanto a um único modelo familiar: consiste no casal normativo heterossexual, que agrega os filhos, e a construção do patrimônio em comum. Existindo desta forma, no Inconsciente coletivo, um Modelo único, aceito e perpetuados socialmente.

Através de estudos acadêmicos, em 1923, o dicionário Merriam Webster definia a orientação sexual como “paixão sexual mórbida por alguém do sexo oposto”. E apenas em 1934 a heterossexualidade teve o significado atualizado: “manifestação de paixão sexual por alguém do sexo oposto”.

Pessoas costumam reagir com incredulidade ao conhecer essas definições e perpetuam a sensação de que a heterossexualidade sempre “esteve presente”.

 A construção social do desejo e da identidade homossexuais, na verdade, como a maioria de nós aprendeu, ou registrou, seria que a identidade homossexual passou a existir em um momento específico da história humana. O que não aprendemos porém, é que este mesmo fenômeno ocorreu com o surgimento da heterossexualidade. Heterossexual é o que pertence ou é relativo à heterossexualidade. Este termo faz referência à relação erótica entre indivíduos do sexo oposto. A heterossexualidade é, portanto, o oposto da homossexualidade (relações eróticas entre indivíduos do mesmo sexo) e distingue-se da bissexualidade (relações eróticas com indivíduos de ambos os sexos).

A palavra heterossexual é a junção das palavras “hétero” e “sexo”, sendo que hétero vem do grego e significa “diferente”, enquanto que sexual provém da palavra em latim para “sexo”.

Há várias razões para essa omissão educacional e moral, incluindo viés religioso e outros tipos de homofobia, mas principalmente por ser uma questão que envolve o Controle Social. Mas a principal razão pela qual não fazemos perguntas sobre a origem da “heterossexualidade” é provavelmente porque ela parece Natural e também Normal. Mas a heterossexualidade não “estava simplesmente presente” desde sempre. E não há por que imaginar que sempre estará. “O sexo não tem história”, escreve o teórico quer David Halperin, professor da Universidade de Michigan, “porque é baseado no funcionamento do corpo”. A sexualidade, por outro lado, tem uma história, precisamente porque é uma “construção cultural”. Em outras palavras, enquanto o sexo parece ser algo programado na maioria das espécies, a nomeação e classificação desses atos e de quem os pratica é um fenômeno histórico que pode e deve ser estudado como tal.

Segundo afirma Blank, “a invenção da heterossexualidade corresponde com o surgimento da classe média”.

A família burguesa precisava de uma forma de proteger seus membros da “decadência aristocrática por um lado e dos horrores da cidade lotada do outro”. Isso demandava “sistemas reproduzíveis e universalmente aplicáveis para uma administração social que pudesse ser implementada em larga escala”.

No passado, esses sistemas podiam ser baseados na religião, mas o “novo Estado secular exigia uma justificativa secular para suas leis”, diz Blank. Aí entram especialistas como Krafft-Ebing, que deixou claro que a classe média ascendente não podia considerar o desvio da sexualidade normal (hétero).

 

O Modelo Familiar estaria condicionado a heterossexualidade. Como também a Família brasileira ter como referência o Pai, Mãe e Filhos. Em detrimento desta realidade, muitos casais se sentem frustrados quando não conseguem ter uma Gestação natural, ou a legitimação deste Modelo com a vinda de um herdeiro legítimo. Mas no mundo contemporâneo, vemos a inseminação artificial sendo bastante difundida, a adoção, a barriga de aluguel, como outras possibilidades de Modelos e construção deste Núcleo Familiar.

Tecnologias como a implantação de diagnóstico genético e fertilização in vitro (FIV) estão sendo cada vez mais desenvolvidas. Em 2013, mais de 63 mil bebês nasceram a partir de FIV. Na verdade, mais de cinco milhões de crianças nasceram através de tecnologias reprodutivas. Esse número ainda mantém esse tipo de reprodução como minoria, mas toda evolução tecnológica começou com os números contra ela.

A cultura popular está repleta de imagens de relações e casamentos heterossexuais disfuncionais. Além disso, entre 1960 e 1980, a taxa de divórcio aumentou em 90%, lembra Katz. E enquanto ela caiu consideravelmente durante nas últimas três décadas, ela não se recuperou ao ponto em que seja possível falar que “instabilidade de relacionamento” seja algo exclusivo dos homossexuais, diz Katz.

Mas a heterossexualidade enquanto marcador social, estilo de vida e identidade pode estar sendo diluída aos poucos, e substituída por outro constructo histórico. Estamos em um momento histórico, de Revolução nos Sistemas grupais, familiares, de relacionamentos amorosos, que consiste em dar espaço para a validação de novos modelos. 

Como considerava Jung, o Inconsciente Coletivo cria imagens, valores, crenças, que são perpetuados pelas culturas, e sociedades. Somos imersos em uma cultura em que elegeu por necessidades econômicas e sociais, a legitimação de um único modelo: casal heterossexual. Que sejamos livres de preconceitos, julgamentos, para aceitarmos nos momentos atuais, o que é mais importante neste momento de Revolução dos Sistemas: que consiste no respeito à diversidade. Que tenhamos espaços sociais, para que outros modelos familiares se construam, de forma saudável, e que não sejam levados a marginalidade, em grupos de exclusão, ou guetos. Que sejamos livres e saibamos dar liberdade de expressão a todas as formas de Relacionamentos, que serão a base para a construção de novos Núcleos Familiares. 

Mas me questiono, será que falar de família não seria também ser capaz de ter um olhar mais profundo sobre a História da Sexualidade? Temos muitos tabus a serem dissipados, mesmo que já tenhamos a expressão da diversidade de Modelos. 

Começamos a refletir sobre a Sexualidade. As visões sobre sexo do espanhol Manuel Lucas Matheu, de 69 anos, contrariam – e muito – o senso comum, pois o seu estudo analisou 66 culturas diferentes, algumas com pesquisa de campo, como nas Ilhas Carolinas, na Micronésia. A conclusão desse estudo é que as sociedades mais pacíficas são aquelas onde a moralidade sexual é mais flexível e onde o feminino tem um papel preponderante. Os chuukies, uma sociedade nas Ilhas Carolinas, na Micronésia, trata-se de uma sociedade em que todos os bens são herdados através da linha materna. Ou seja, a mãe é quem determina o poder econômico.

Ao contrário do que ocorre na sociedade ocidental, em que se dá uma enorme importância ao tamanho do pênis, ali o que importa é o tamanho dos lábios menores da genitália das mulheres. Enquanto no Ocidente a menstruação era considerada algo impuro, lá ela é considera vantajosa e é empregada até para fins medicinais. Ali não existe ciúme, nem o conceito tradicional de fidelidade. A moralidade sexual é muito mais flexível que aqui. Ao mesmo tempo, essa é uma sociedade muito pacífica, enquanto a sociedade ocidental é muito agressiva. A monogamia não é uma característica do ser humano de forma alguma.

Basta olhar o atlas etnográfico de Murdock, que analisou mais de 800 sociedades e mostrou que 80% delas não são monogâmicas. Elas são poligínicas (um homem com várias parceiras) ou poliândricas (uma mulher com vários parceiros). Além disso, a mulher é a voz mais forte nas relações sexuais. É ela a responsável pelos encontros sexuais. Os homens se aproximam engatinhando nas cabanas das mulheres, solteiras e casadas, e introduzem nas cabanas pedaços de pau talhados que permite à mulher identificar quem é cada um deles. Em contraste, as sociedades reprimidas e nas quais as mulheres têm papel secundário, como as sociedades ocidentalizadas em que vivemos, são mais agressivas e “argumenta que os seres humanos não são predispostos à monogamia. Novamente temos a questão do Sistema Patriarcal e Matriarcal, onde estes dois Sistemas podem hoje no mundo Contemporâneo encontrar o caminho do meio? Se somos seres Sociais, podemos trazer o melhor destes dois Sistemas, para que tenhamos sociedades com base na horizontalidade, e não mais na verticalidade, e inseridas em uma relação de poder. 

 Segundo Manuel Lucas Matheu, a monogamia está relacionada à economia! Defende que nossa Sociedade é monogâmica porque somos pobres. É só observar nossa sociedade para compreender: os ricos não são monogâmicos, na melhor das hipóteses são monogâmicos sequenciais – ao longo da vida têm vários parceiros consecutivamente, um atrás do outro. Os que não são ricos não podem ser monogâmicos sequenciais, porque se divorciar ou separar causa um enorme dano econômico. E a poligamia (ter vários parceiros sexuais ao mesmo tempo) também é muito cara. Acredito que as pessoas que se dedicam a acumular riqueza ou poder de maneira compulsiva sofrem o que chamo de “erótica do poder”, compensam a sua falta de satisfação sexual com isso (poder).

O psicanalista Wilhem Reich dizia que reprimimos a libido não apenas de maneira quantitativa, mas também qualitativa. A sociedade burguesa capitalista, ele dizia, concentrou a sexualidade nos órgãos genitais para que o resto do corpo pudesse focar em produzir para o sistema.

 Que sejamos livres para viver o prazer erótico em todo nosso corpo e Sistema!

Que sejamos livres de todos os tabus, preconceitos e crenças sociais e culturais que nos bloqueiam em relação ao Encontro do prazer e da diversidade!

Janaina Leopardi

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