Função Simbólica

Florianópolis

Função Simbólica

“Todo homem tem, portanto, pela função simbólica, o meio de agir sobre outros homens,
despertando neles uma ressonância sensorial receptiva que combina com a sua. Esta
simultaneidade de emoção, despertada em diversas consciências por um sinal mediador,
provoca entre elas o reconhecimento inter-humano, a fraternidade da espécie: uma
comunhão emocional.” (DOLTO, F.1988)
Vivemos um momento de assombro para muitos em vários países e continentes, de risco à
vida das pessoas que amamos e a nossa própria, nos afastamos das ruas para impedir que esta
Pandemia do vírus se torne pior, impossível de ser enfrentada. Porém, nós a estamos
enfrentando. Estamos armados com nossa melhor capacidade humana, a de reconhecer a
existência do outro, a de emanar uma afirmação e ser validade, sim, precisamos nos cuidar,
cuidar da Natureza, cuidar de nossos filhos e dos outros, pois se não, todos morreremos.
Coincidentemente, este trecho da maravilhosa Francoise Dolto foi retirado do capítulo “a
aquisição da autonomia” do livro “ Dificuldade de viver- psicanálise e prevenção das
neuroses”, o que é uma sociedade sem referência, sem memória, sem o ter vivido a
experiência para que haja um lugar de valor, hierarquizado, ligada a uma experiência
denotando tempo, espaço e um lugar no corpo? Pois, é isso o quê estamos vivenciando neste
momento de Pandemia. E continuando nessa ressonância nos mantemos em casa, separados
por um símbolo, o vírus, a morte, a dor, a perda, o antes na expectativa da cura, do retorno à
beleza da vida, do prazer da liberdade mas também, da doença do cotidiano. Acredito que
todos estamos nos questionando em vários aspectos e verificamos que algo precisa ser
mudado, que chegamos em um limite, um limite ambíguo da pulsão da morte que ao mesmo
tempo nos impulsiona a preservar a vida, todas as formas de vida no nosso planeta. Será que
chegou o momento de adquirirmos a nossa autonomia como seres em relação às nossas
pulsões destrutivas e nos separarmos dessa visão instintiva inconsciente e partimos para uma
relação simbólica com maior atribuição da pulsão de vida, do amor, por uma inscrição
materializada no corpo por trocas mais construtivas com o nosso mundo exterior? Ainda
citando Dolto, estamos velando por uma vida fora da útero da mãe ou nos prendemos à
irresponsabilidade dos nossos atos perante a realidade que nos cerca? Adquirir a nossa
autonomia como seres humanos ainda é um longo passo no nosso desenvolvimento, pois
pensamos que somos adultos, mas somos mesmo? Ou estamos apenas na faixa etária
enquanto que nossa maturação emocional, racional e de similitude com a vida do outro
permanece isolada e simbiotizada apenas com satisfações imediatas? Não sei, mas este
momento me remete muito a um nascimento, a um resgate de nós como pessoas e modo de
exercer nossa autonomia no mundo, de demonstrar nossa pulsão criadora de vida e de amor,
da conquista de mais símbolos que possam espalhar a criação da vida,do reconhecimento do
meu semelhante, do espaço do outro, de validar o outro como EXISTÊNCIA DE VIDA, da
aceitação de perdas necessárias e da ressonância da esperança. Neste momento, eu não podia
deixar de buscar alguma comunhão de questões que têm permeado minha Pandemia.

Psicóloga Michelle Elias Siqueira

@psimichelleeliassiqueira
CRP 12/07226
048 99170 1277

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