Autismo

Florianópolis

Autismo

Uma brevíssima introdução

EXCERTOS DO LIVRO “TRANSTORNO DO ESPECTRO AUTISTA: UMA BREVÍSSIMA INTRODUÇÃO”

Quando as pessoas se deparam com a síndrome do aspecto autismo, seja por que seu filho está em investigação médica, ou um professor se depara com um aluno em sala de aula ou até mesmo por interesse acadêmico, geralmente as pessoas têm a tendência em procurar as primeiras informações na internet sobre autismo, e isso muitas vezes em vez de informar deixa as pessoas mais confusas. Cabe salientar o cuidado que se deve ter ao buscar essas informações em leituras, vídeos que não sejam de cunho cientifico, é muito comum que haja uma grande quantidade de informações erradas ou desatualizadas decorrentes de muitos processos tais como : 

  1. a) Informações decorrentes de estudos científicos, mas mal compreendidas por alguém de fora da comunidade acadêmica; 
  2. b) Informações não científicas advindas de práticas não confirmadas e não confiáveis.

A locomoção na internet para se encontrar trabalhos confiáveis é muito difícil, pois temos poucas publicações de caráter mais amplo sobre autismo no Brasil. Os artigos científicos, por sua vez, são muito específicos e parte da premissa de que o leitor possua uma série de conhecimentos prévios que muitas vezes não estão satisfeitos.

O QUE É, ENFIM O AUTISMO?

Quais são as causas do autismo?

O Transtorno do Espectro Autista é uma condição caracterizada por um conjunto sintomático. Isto porque não conhecemos ainda com exatidão as causas etiológicas que o definem, ou seja, quais são os marcadores que estão presentes em uma pessoa com autismo. 

No entanto, hoje já temos diversos conteúdos importantes a pronunciar. Na maior parte das vezes o autismo é genético, ou seja, decorre da carga genética de seus pais ou é uma mutação genética ocorrida na própria criança. Estudos recentes apontam o impacto genético no desenvolvimento entre 80 e 90%. Pesquisa recente informou este percentual em 83% (SANDIN, et al., 2017).

 Mas embora haja esta forte presença genética, nem sempre o autismo se desenvolve no sujeito, é preciso também situações ambientais para que possamos dizer que se trata de uma criança com TEA. Mas é muito importante ressaltar que este “ambiente” de que falamos nada tem a ver com o afeto dos pais ou a relação com as pessoas, mas sim o ambiente de dentro do útero e talvez o processo de parto.

 É muito importante notar que a pesquisa está somente iniciando seu conhecimento sobre os fatores de risco para autismo de modo que as pesquisas e estudos se atualizam dia após dia .  

O que o DSM V tem a dizer? 

A ciência é um conhecimento muito volátil e se modifica com muita velocidade. Neste exato momento em que você lê este texto, há inúmeros cientistas realizando pesquisas sobre o autismo. Algumas delas possivelmente vão obrigar a revisão periódicas. 

 Quando uma pesquisa aponta em um sentido diferente de um conhecimento já consolidado, este novo conhecimento é avaliado pela comunidade científica e em geral passa por testes de validação, até ser aceito como nova forma de se enxergar um determinado evento. E este é o processo de avanço da ciência que nos propicia um conhecimento cada vez mais preciso de certos objetos, entre eles, o autismo.

 A Associação Americana de Psiquiatria desde há décadas concentra os conhecimentos consolidados em distúrbios mentais em um Manual Estatístico e Diagnóstico de Transtornos Mentais, o DSM4.

Até a quarta versão do DSM, ou seja, até 2013, o autismo era subdividido em diversas subcondições do que chamavam de Transtornos Globais do Desenvolvimento, tais como Síndrome de Asperger, Transtorno Desintegrativo da Infância, Autismo Clássico, Síndrome de Rett e Transtorno Global do Desenvolvimento sem outra especificação. A partir do DSM V, todas as subdivisões deixaram de existir e passaram ficar sob um guarda-chuva diagnóstico de Transtorno do Espectro do Autismo – TEA, que designa agora todas as formas de autismo (a Síndrome de Rett, contudo, foi separada, por já conhecermos bem a genética que a causa).

Critérios diagnósticos no DSM-V

O primeiro critério a ser apresentado define a relação encontrada na pessoa com TEA em relação à comunicação. Espera-se “A. Déficits persistentes na comunicação social e na interação social em múltiplos contextos.

  1. Déficits na reciprocidade socioemocional, variando, por exemplo, de abordagem social anormal e dificuldade para estabelecer uma conversa normal a compartilhamento reduzido de interesses, emoções ou afeto, a dificuldade para iniciar ou responder a interações sociais – A reciprocidade socioemocional é a capacidade de se relacionar com outra pessoa da maneira esperada, em que a reação de uma pessoa corresponde à ação da outra. Mas isso pode ser muito complicado para a pessoa com autismo, que não reconhece de maneira natural e/ou imitativa os padrões de aproximação considerados adequados pela sociedade e possui dificuldade em compreender o que se espera dele.
  2. Déficits nos comportamentos comunicativos não verbais usados para interação social, variando, por exemplo, de comunicação verbal e não verbal pouco integrada a anormalidade no contato visual e linguagem corporal ou déficits na compreensão e uso gestos, a ausência total de expressões faciais e comunicação não verbal – Em primeiro lugar é preciso dizer que uma parte das pessoas com autismo não fala. Por algum motivo ainda não muito claro, uma parte das pessoas com TEA possuem toda a capacidade vocal, mas não são capazes de desenvolver a linguagem falada. É preciso ainda lembrar que embora muitas vezes a fala esteja ausente, isto não impede que haja outras formas de comunicação, como através de gestos ou de PECs, assunto sobre o qual dissertaremos mais à frente.
  3. Déficits para desenvolver, manter e compreender relacionamentos, variando, por exemplo, de dificuldade em ajustar o comportamento para se adequar a contextos sociais diversos a dificuldade em compartilhar brincadeiras imaginativas ou em fazer amigos, a ausência de interesse por pares – As crianças costumam brincar com jogos imaginativos, o que também podemos chamar de simbólicos. Estas brincadeiras podem ser, por exemplo, de policial e bandido, de casinha de boneca, de super-herói, entre outros. Para que essas brincadeiras deem certo, é necessário que haja um forte componente imaginativo que as pessoas com TEA têm muita dificuldade em ter. Pessoas com autismo, em geral, são muito pragmáticas, tomam as falas ao pé da letra, e essa dificuldade prejudica a capacidade de se fazer amigos.

Passamos, pois, ao segundo critério diagnóstico, que trata da questão comportamental: “B. Padrões restritos e repetitivos de comportamento, interesses ou atividades, conforme manifestado por pelo menos dois dos seguintes, atualmente ou por história prévia”

  1. Movimentos motores, uso de objetos ou fala estereotipados ou repetitivos (p. ex., estereotipias motoras simples, alinhar brinquedos ou girar objetos, ecolalia, frases idiossincráticas) – A primeira observação aqui é a necessidade da compreensão conceitual de estereotipia. Trata-se de um comportamento inadequado, não habitual, não convencional. Às vezes pode ser muito difícil reconhecer um comportamento estereotipado e pode requerer mais convívio com o sujeito (CUNNINGHAM e SCHREIBMAN, 2009).
  2. Insistência nas mesmas coisas, adesão inflexível a rotinas ou padrões ritualizados de comportamento verbal ou não verbal (p. ex., sofrimento extremo em relação a pequenas mudanças, dificuldades com transições, padrões rígidos de pensamento, rituais de saudação, necessidade de fazer o mesmo caminho ou ingerir os mesmos alimentos diariamente) – Após acordarmos, há diversas possibilidades de o dia se desenvolver, que podem envolver pessoas diferentes, lugares novos, decisões inusitadas ou até mesmo coisas muito pequenas como fazer um caminho distinto para os mesmos lugares ou chegar em casa e um móvel ter sido mudado de lugar. Estas pequenas variações não nos perturbam nem nos angustiam, mas muitas vezes podem fazer com que uma pessoa com TEA tenha uma crise.
  3. Interesses fixos e altamente restritos que são anormais em intensidade ou foco (p. ex., forte apego a ou preocupação com objetos incomuns, interesses excessivamente circunscritos ou perseverativos) – Esse elemento é muito comum em sujeitos com autismo. No caso daqueles que possuem um grau mais leve do transtorno, esse hiperfoco pode favorecer sua vida em sociedade e aproveitamento no mercado de trabalho. Contudo, essa obsessão também possui uma face bem menos proveitosa socialmente e talvez também mais comum, que é a fixação em conteúdos que são simplesmente repetidos, como dinossauros, esportes entre outros, tornando impraticável qualquer diálogo, ou ainda uma obsessão por certos objetos, que podem ser, por exemplo, bolas, livros, revistas ou qualquer outro.
  4. Hiper ou hiporreatividade a estímulos sensoriais ou interesse incomum por aspectos sensoriais do ambiente (p. ex., indiferença aparente a dor/temperatura, reação contrária a sons ou texturas específicas, cheirar ou tocar objetos de forma excessiva, fascinação visual por luzes ou movimento) – podem ter uma extrema sensibilidade ao som, de modo que um ambiente ruidoso pode ser, muitas vezes, insuportável para uma pessoa com autismo. O mais comum é a hipersensibilidade auditiva, mas ela pode estar presente também no tato, fazendo com que o sujeito seja irritadiço com o toque ou tenha uma estereotipia ligada à sensação de tato com certos objetos e texturas (HAZEN et al. 2014). Também não é incomum uma hipersensibilidade gustativa, o que pode ser um grande problema para pais de pessoas com autismo, pois podem desenvolver sérios problemas em relação à alimentação. 
  5. Os sintomas devem estar presentes precocemente no período do desenvolvimento (mas podem não se tornar plenamente manifestos até que as demandas sociais excedam as capacidades limitadas ou podem ser mascarados por estratégias aprendidas mais tarde na vida) – Há algum tempo, acreditava-se que as crianças só manifestavam o autismo após os dois anos de idade, hoje sabemos que esta informação está incorreta, a manifestação do autismo pode ser observada algumas vezes desde muito breve e quase sempre dá sinais claros a partir dos 12 meses de idade (ADRIEN et al. 1993).

Comorbidades

 O DSM V também explora a questão das comorbidades presentes no autismo. Trata-se de condições associadas ao autismo no sujeito. O Manual instrui os clínicos a registrarem o autismo: 1. Com ou sem comprometimento intelectual concomitante; 2. Com ou sem comprometimento da linguagem concomitante; 3. Associado a alguma condição médica ou genética conhecida ou a fator ambiental 4. Associado a outro transtorno do neurodesenvolvimento, mental ou comportamental; 5. Com catatonia. 

Em 2013, Matson e Goldin defenderam que as comorbidades mais comuns encontradas com o autismo são epilepsia, distúrbio do sono, transtorno de atenção e hiperatividade – TDAH, ansiedade, estereotipia, comportamento infrator e Deficiência Intelectual e também Deficiência Auditiva. Essas condições são comumente associadas ao autismo e são fonte de intervenção específica, já que podem criar condições que dificultam o desenvolvimento do sujeito.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 ACAB, A. & MUOTRI, A.R. The Use of Induced Pluripotent Stem Cell Technology to Advance Autism Research and Treatment. Neurotherapeutics (2015) 12: 534 

ARAÚJO, Ceres Alves de. Psicologia e os transtornos do espectro do autismo. In: SCHWARTZMAN, J.S; CERES, A.A (Orgs.). Transtornos do Espectro Autista. Porto Alegre: Artmed, 2011. p. 173-201. 

ARAUJO, Luiz Alberto David. A Proteção Constitucional das Pessoas com Deficiência. 4. ed. Brasília: Secretaria de Direitos Humanos, 2011. Disponível em: http://www.pessoacomdeficiencia.gov.br/app/sites/default/files/publicacoes/a protecaoconstitucional-das-pessoas-com-deficiencia_0.pdf Acesso em 02/02/2016 

ASSUMPCAO JR, Francisco B; PIMENTEL, Ana Cristina M. Autismo infantil. Rev. Bras. Psiquiatr., São Paulo, v. 22, supl. 2, p. 37-39, Dec. 2000. Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1516- 44462000000600010&lng=en&nrm=iso>. Acesso em 29 Set. 2016. http://dx.doi.org/10.1590/S1516-44462000000600010

Baer, D. M., Wolf, M. M., & Risley, T. R. Some current dimensions of applied behavior analysis. Journal of Applied Behavior Analysis, 1, 1968 91-97

Fabiana Battisti

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